Por: Ana Márcia
Os temas por aqui abordados procuram discorrer sobre aspectos simples do cotidiano do lar, construindo uma ponte com o lado afetivo e as memórias dos prazeres simples, como é a vida na casa, e o cantinho especial, a cozinha. Por isso mesmo sinto falta quando passo muito tempo sem tratar dos assuntos que levam ao mexe mexe nas gavetas de utensílios, dos armários revirados, da escolha da panela e das dicas para a despensa. Faço um mea culpa que outros espaços do gourmetidos me puxam de um lado para o outro sem fim. No entanto deparei-me num momento que me aproximou deste espaço tão cheio de cumplicidade.
Mês atrás todo o cotidiano da casa resolveu tirar suas merecidas férias. Sarah foi para São Paulo, Zezinha a secretária, para casa dos pais e Jasmim a cadela Schnauzer ficou hospede na casa da família. Todos de férias, a rotina mudou e muita energia foi consumida pela áurea da mulher multi facetada.
Claro que não consegui dar conta de tudo. Muitas vezes às plantas esperaram o dia todo por goles de água. Na medida em que os dias se passavam fiz de conta que não vi o pó no chão, embora hoje considere que a falta de atividade física, outro sacrifício destes dias, poderia ter sido suprida pelos movimentos firmes, do corpo e dos braços, segurando e deslizando a vassoura no piso. A escolha acertada foi manter a cozinha sempre limpa.
Todo santo dia, novo dia. A gourmetida teen fazia uma falta danada. As sintonias de pensamento foram constantes, estando ela lá, eu cá pensava com meus botões por onde gostaria de ir em São Paulo - fazer uma surpresa ao Chef Carlos Ribeiro no NACOZINHA, conhecer o restaurante Mocotó do talentoso chef Rodrigo Oliveira e com ele bater um papo sobre nata, queijo de manteiga. Ah! Não, primeiro de tudo iria mesmo para o Mercado Municipal, ficaria mais uma vez encantada com os vitrais, as frutas exóticas, aveludadas com tons de vermelho e pêssego. Nozes, castanhas e especiarias, os temperos, as caças, todas as iguarias que uma simpatizante dos fogões, assim, com eu desejaria ter. E o curry verde, que nunca encontrei por aqui, com certeza eu encontraria por lá.
Nestes dias fui mais para cozinha a noite, preparava ora: um missô ou um minestrone. As sopinhas me fartavam e acalentavam a saudade. Num dia específico a inquietação foi maior e a solução, confort food. Senti vontade de comer uma papa, um mingau de aveia. Decidida a degustar a comidinha de criança, revirei os armários da cozinha procurando uma pequena panela, ou melhor, um papeiro, liguei o fogo e comecei a colocar os seguintes ingredientes: três colheres de aveia em flocos , 200ml de leite e 1 colher de chá de manteiga com sal.
Enquanto mexia pacientemente a papinha sobre a labareda azul, as memórias gustativas me davam conforto e acomodação. A comida nesta hora tem um significado de colo. Ela aconchega, preenche. Finalmente, despejei o creme de aveia bem consistente, sobre um prato de sobremesa. A fumaça logo se perdeu na minha imaginação, a cena mais uma vez se repetia. Nem preciso me esconder para confessar que só a comida, que saboreei enquanto filha, sobrinha e neta, é capaz de cuidar do que por hora, não tinha remédio.
Antes, porém os últimos toques. Chuvas de canela para perfumar o prato e o ambiente. A canela potencializa seus aromas quando colocada sobre um alimento ainda quente. Mas como não adocei então acresci um fio de mel de abelha. Sentei-me, relaxada, pus-me a degustar cada colherada cheia de emoção. Finalmente quando tudo terminou estava bem e pronta para o descanso.
As férias acabaram. Sarah, Zezinha e Jasmim estão de volta e fazem a casa pulsar. Com mais tempo, vou reintegrando os prazeres e os compromissos com calma e disciplina. Domingo que passou fiz o que adoro: cuidei da casa, fiz um chilli, compartilhei com a família, degustei meu tinto e fui ao cinema, claro que com bastante tempo para planejar duas sessões seguidas entre breve intervalo.
A primeira película foi Tinha Que Ser Você, um filme romântico emocionante sem ser piegas. Numa cena específica peguei na mão da filha e já viu: a manteiga derreteu, entendeu? Chorei. Acontece.
Depois de breve intervalo, abastecida com água e pipoca fui ver Coração Vagabundo, o documentário sobre Caetano Veloso. Não vi seu show na cidade, estava no Festival de Martins. Durante o filme num dado instante achei que dialogava com o personagem, ele falava, e eu queria ouvir. O trabalho revela um homem simples, falante, silencioso, atônito ao reconhecimento dos fãs pelo mundo afora. Adorei vê-lo abraçar a árvore. Aliás, o Caetano que vi no documentário é certamente o mesmo que foi com Silvio Ozias e Juliene de fusca comer uma pizza no Paulista, lindo, simples e normal.
Nada melhor que uma faxina na casa, confort food, o cheiro de canela e o tempo para Caetano, assim: casa, canela e Caetano meu complemento.